O corno do xadrez
Eles formam um par perfeito. Ele baixinho careca e barrigudo, ela um Concorde, olhos claros, pele lisa, boca sensual, pernas delineadas, um verdadeiro monumento.Ao caminharem na rua todos observam. Ele é todo sorriso ao contrário dela que é extremamente sisuda, olhar fixo no horizonte, uma santa.
Reginaldo se sente feliz ao lado daquele monumento. Sim, porque ela é uma mulher muito honesta, uma verdadeira dama. No seu caminhar matutino ele faz questão de passar na pracinha, onde, todo o dia, rola um joguinho de xadrez. Ali se reúne a casta dos pensionistas da Marinha. Quando Reginaldo passa com a”dadivosa”, sua mulher, a galera mui respeitosamente cumprimenta – bom dia seu Guinaldo, bom dia dona Dadi! Dadivosa apenas movimenta a cabeça, mas Guinaldo, esse responde todo feliz – bom dia galera, logo mais tem? Todos respondem – claro. E lá se vai Guinaldo todo serelepe, deixando para traz uma turma aturdida pela visão daquele monumento. Sim, porque, a natureza fora deveras generosa com dona Dadi, principalmente na região glútea.
Ao cair da tarde Guinaldo beija Dadi e sai todo alegre em direção à pracinha onde a turma do xadrez o aguarda para a partida. O jogo começa e segue noite a dentro, o que já é uma rotina. no fundo do coração aqueles velha-guardas se perguntam – como pode um avião daquele em casa e esse corno velho aqui jogando xadrez? Sim, era duro de crer, a Dadi era uma mulher fenomenal, não merecia ficar sozinha naquele Ap.
Um dia as mulheres da rua se reuniram e resolveram tomar uma atitude, pois até elas estavam incomodadas. Foram todas para a praça tomar satisfação com seu Guinaldo. A mais revoltada, dona Isaurinha tomou a palavra – seu Guinaldo, isso não pode continuar, o senhor aqui, com esses velhos broxas, nesse maldito jogo e sua esposa, pobre coitada, abandonada naquele Ap. toma vergonha na cara! Guinaldo sentiu um remorso danado, até porque a esposa do seu Antíbes relatou que todas as noites ouvia a pobre mulher gemendo de tristeza. Seus lamentos eram tão profundos que já estavam incomodando a vizinhança. O velha-guarda não pensou duas vezes, largou o jogo e saiu em socorro de sua Dadi.
A turba que a essa altura do campeonato, havia se transformado numa pequena multidão, acompanhou o pobre homem (era para dar uma força). Ao chegarem a frente do prédio a multidão se deteve e Guinaldo se dirigiu à portaria. Os degraus foram vencidos de dois em dois. Ao chegar à porta do Ap. ele percebe que os gemidos de dona Dadi eram quase que lacinantes. Guinaldo dá uma leve pancada, chamando sua amada com voz suave. Lá em baixo a multidão que havia se avolumado, percebe um movimento na janela. No momento em que a mesma é aberta, surge a figura de um homem. O povão começa a ensaiar um coro de pula, pula, pula. Agarrado ao parapeito da janela, o Ricardão não suporta seu próprio peso e despenca de uma altura de seis metros, caindo sobre seu próprio carro, que estava estacionado estrategicamente em baixo da janela de dona Dadi.
Enquanto isso, Guinaldo chora copiosamente abraçado a dona Dadi, prometendo nunca mais sair pra jogar xadrez. O pobre coitado, além de corno era também surdo.
Aconteceu em Edem
Por San Burundi

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