O dono do pelegasso
Devaneava eu valongo a fora, quando fui interrompido por risos, que se misturavam às súplicas de um homem, as quais ecoavam por todo o vale. Cheguei-me ao ajuntamento e só ai eu pude perceber que era um preto que açoitava outro, em plena praça. O “outro” não se atrevia a fugir, gemia somente estas únicas palavras
– perdão meu amo, meu amo perdão! Mas o preto não fazia caso e a cada súplica respondia com mais lambadas, ao mesmo tempo em que gritava
– toma mais perdão seu descarado!
- meu amo! Dizia o outro.
Cala a boca sua cobra! Replicava o preto.
Estanquei observei... Virgem santa! Quem havia de ser o do pelegasso? Nada mais nada menos que minha mula o Ataliba, aquele que meu pai havia libertado tempos atrás. Cheguei-me; ele reteve o pelegasso e, com o olhar abrandado e a voz embargada pediu-me a benção; questionei!
- este negro é teu?
- é sim meu amo, respondeu-me ele.
Fez-te algo?
-é um vadio, um traidor descarado. Ainda hoje eu o deixei cuidando da nossa casa, enquanto eu ia ao mercadinho e o safardana, saiu pelos fundos para ir se enroscar com a negra Pudina nas macegas da beira rio.
- está bom perdoa-lhe, disse eu.
- pois não meu amo, meu amo manda não pede. Vamos embora seu descarado, disse o preto para o outro.
Saí do grupo, que me olhava espantado, fazendo caras e bocas, e segui caminho, tentando ordenar meus pensamentos. A cena do valongo era trágica e ao mesmo tempo cômica. Aquele preto havia sido minha mula, minha primeira experiência sexual. Eu o tinha como e quando queria. Porém, agora que era livre desagrinholhoado da antiga condição, ele se desbancava; comprara um escravo, para que o mantivesse aprisionado e acorrentado ao seu pelourinho moral.
Por: San Burundi
Glossário:
Pelegasso – Chicote feito com a pele lanosa do carneiro, (Não machuca)
Mula – Homem que seve de mulher para outro

Do Melhor
Linkk
del.icio.us